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Inclusão entra no debate eleitoral e pode mobilizar milhões de famílias brasileiras

O primeiro debate entre candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026, realizado no último domingo (23) pela Rede Bandeirantes, foi marcado pelo esvaziamento. Dos 13 presidenciáveis, apenas Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) participaram.

Juntos, os três somam cerca de 10% das intenções de voto. Os líderes das pesquisas — Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) — não compareceram, embora suas equipes tenham participado das discussões prévias sobre regras e temas do encontro. Romeu Zema (Novo) também abdicou da participação.

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Mesmo com as ausências, um assunto abordado por Augusto Cury chamou atenção para uma parcela expressiva da sociedade que deverá ganhar espaço na campanha: as pessoas com deficiência e as chamadas famílias atípicas.

Cury critica assistencialismo e fala em acolhimento

Psiquiatra e escritor conhecido nacionalmente, Cury abordou a necessidade de políticas que ultrapassem o assistencialismo e ofereçam acolhimento, inclusão e condições para que pessoas com deficiência e transtornos do neurodesenvolvimento tenham maior participação na sociedade.

O candidato vem mantendo encontros com mães atípicas para discutir dificuldades enfrentadas diariamente, desde a ausência de suporte adequado do poder público até o julgamento social dessas famílias.

Entre as ideias defendidas está a expansão de modelos especializados de atendimento, inclusive estruturas voltadas às pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

A dimensão desse público vai muito além dos eleitores que informam possuir alguma deficiência no cadastro eleitoral. O Censo Demográfico de 2022 identificou 14,4 milhões de brasileiros com deficiência, considerando a população com dois anos ou mais de idade.

Quando pais, mães, irmãos, responsáveis e demais familiares entram nessa equação, a pauta alcança potencialmente dezenas de milhões de brasileiros.

E existe uma diferença importante: para essas famílias, inclusão não é simplesmente uma bandeira eleitoral. É uma necessidade presente na escola, saúde, transporte, trabalho, lazer, religião e praticamente todos os espaços da sociedade.

Em Blumenau, Josi Menestrina transforma vivência em bandeira

A pauta também aparece na disputa catarinense. Em Blumenau, Josi Menestrina (MDB), candidata à Assembleia Legislativa, tem colocado inclusão e atenção às famílias atípicas entre os principais temas de sua campanha.

Nesse caso, existe uma trajetória anterior à disputa eleitoral. Josi fundou uma organização voltada ao acolhimento de famílias atípicas e possui experiência pessoal com o tema: ela própria é diagnosticada com TEA e também é mãe de um filho autista.

Recentemente, participou de uma ação social promovida pelo grupo RVG, na Rivage, que recebeu alunos da APEA de Blumenau e Gaspar. Também esteve na Casa de Acolhida São Felipe Neri, na Velha Grande, que atende crianças em situação de vulnerabilidade social.

Para Josi, a inclusão ainda precisa avançar inclusive em espaços que normalmente ficam fora das discussões políticas tradicionais, como as igrejas. “Até mesmo as igrejas precisam pensar e trabalhar na inclusão das pessoas neurodivergentes e com deficiência. Falta acessibilidade, intérprete de Libras, piso tátil e capacitação dos voluntários para lidar com autistas e demais diagnosticados”, afirma.

Segundo ela, barreiras aparentemente simples podem afastar famílias inteiras da convivência comunitária. “Muitas famílias vivem reclusas, embora desejem participar da vida religiosa, das eleições e de eventos em geral, mas, devido a essas questões, acabam tendo medo de eventual constrangimento.”

Uma pauta em que discurso pode não ser suficiente

As eleições de 2026 também deverão mostrar quais candidatos possuem histórico e conhecimento sobre determinadas causas e quais apenas incorporaram assuntos com potencial eleitoral às suas campanhas.

No caso das pessoas com deficiência e famílias atípicas, esse eleitorado convive diariamente com dificuldades concretas e tende a reconhecer com maior facilidade a diferença entre propostas construídas a partir do conhecimento da realidade e discursos produzidos apenas para gerar repercussão nas redes sociais.

Se milhões de brasileiros convivem diretamente com alguma deficiência, outros milhões fazem parte dessas famílias e conhecem de perto obstáculos que permanecem invisíveis para grande parcela da população.

Por isso, quem tentar apenas “lacrar” dificilmente conseguirá transformar o tema em voto. Para conquistar a confiança dessas famílias, candidatos precisarão apresentar conhecimento, histórico, propostas e, principalmente, resultados capazes de demonstrar que inclusão não surgiu apenas com o calendário eleitoral.

Foto: Divulgação / Reprodução (BAND)

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