Quando a gigante caiu e o fim de uma era: a pesquisa de Alan Kolpachnikof Pereira sobre a história da Sul Fabril
Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Os artigos enviados por eleitores e colunistas não refletem a opinião do portal:
Houve um tempo em que o ritmo de Blumenau era marcado pelo som das fábricas. Entre teares, chaminés e sirenes, a Sul Fabril se tornou um dos grandes símbolos da indústria têxtil catarinense. Empregou milhares de pessoas, expandiu sua produção e chegou a ser a segunda maior malharia da América Latina. Mas grandes impérios também conhecem a queda. A empresa que representou a força industrial de Blumenau acabaria envolvida em uma das mais longas histórias de falência de Santa Catarina. A pesquisa que sustenta este artigo é de Alan Kolpachnikof Pereira, que também o assina. Publicado em revista acadêmica, seu trabalho serve de base para reconstruir, com rigor, essa história.
Sua história começou em 12 de fevereiro de 1947, quando Paulo Fritzsche e Maurício Ramos da Graça fundaram, em Blumenau, a Sul Fabril Ltda. A empresa começou produzindo camisas. Nas décadas seguintes, porém, cresceu muito além de sua proposta inicial. A companhia incorporou malharia, tinturaria, estamparia e confecção, ampliou seu parque industrial e passou a operar em diferentes municípios. Chegou a manter unidades em Gaspar, Ascurra, Rio do Sul e Joinville, além de uma unidade no Rio Grande do Norte. Em 1989, a empresa deu mais um passo na integração de sua produção e passou a fabricar também os próprios fios.
Era o modelo das grandes indústrias têxteis catarinenses: controlar praticamente todas as etapas da cadeia produtiva.
O auge da gigante
O tamanho que a Sul Fabril alcançou ajuda a compreender por que sua queda marcou tanto Blumenau. Em 1994, a companhia registrava faturamento de aproximadamente US$ 140 milhões. Tinha cerca de 5,6 mil funcionários e produzia aproximadamente 5,1 milhões de camisas por mês. Era, naquele momento, a segunda maior malharia da América Latina.
O controle acionário, entretanto, permanecia fortemente concentrado na família fundadora. Segundo o relatório do síndico apresentado em 2001, Gerhard Horst Fritzsche detinha, no início dos anos 1990, 98,44% das ações com direito a voto. A concentração do controle empresarial se tornaria posteriormente um dos elementos analisados no processo que acompanhou a derrocada da companhia. Mas, naquele momento, o cenário ainda era de força.
E então o Brasil mudou.
O mundo que entrou pelos portos
A década de 1990 representou uma ruptura para a indústria brasileira. Com a abertura comercial iniciada no começo da década, o sistema de proteção que durante anos havia ajudado a sustentar a indústria nacional começou a ser desmontado. Produtos estrangeiros passaram a disputar diretamente o mercado brasileiro.
Para as empresas têxteis de Santa Catarina, acostumadas a atuar em um ambiente mais protegido, a mudança foi particularmente dura.
Era necessário produzir mais barato, modernizar equipamentos, reduzir custos e aumentar a eficiência. Blumenau sentiu o impacto. Segundo estudo citado na pesquisa, entre 1995 e 2002 a atividade econômica do município sofreu retração de 17,7%. A cidade também perdeu participação na arrecadação estadual de ICMS. A dependência histórica da indústria têxtil tornava o município especialmente vulnerável. Embora os sinais públicos da crise tenham se tornado mais evidentes a partir de 1996, o relatório do síndico apresentado em 2001 aponta que a situação financeira da companhia já teria chegado a um ponto crítico no final de 1995.
Naquele momento, a empresa reuniu bancos credores para comunicar dificuldades e propor uma espécie de moratória informal.
A empresa enfrentava dificuldades de capital de giro e de aquisição de matéria-prima. Sua unidade no Rio Grande do Norte também entrou em dificuldades. Em 16 de setembro de 1999, a Sul Fabril requereu sua autofalência. No dia seguinte, a falência foi decretada pela Justiça de Blumenau. O passivo histórico registrado posteriormente chegava a aproximadamente R$ 238,5 milhões, diante de ativos estimados em cerca de R$ 131 milhões.
Mas a história não terminaria ali.
Uma falência que continuou produzindo
Talvez o capítulo mais curioso da história da Sul Fabril seja justamente o que aconteceu depois da falência. A empresa continuou funcionando. A Justiça autorizou a continuidade das atividades e, durante anos, a massa falida permaneceu produzindo sob administração judicial.
Isso transformou o caso em uma situação bastante singular. Uma empresa oficialmente falida continuava tendo fábricas, funcionários, produção, fornecedores e clientes. Em 2009, uma década depois da decretação da falência, aproximadamente 1,2 mil pessoas ainda trabalhavam nas unidades de Blumenau e Ascurra. Mas manter uma empresa industrial em funcionamento sem acesso normal ao crédito não era simples. A massa falida precisava recorrer a operações de factoring para financiar seu capital de giro. Em 2004, segundo levantamento citado no estudo, aproximadamente R$ 10 milhões foram consumidos apenas com juros, valor equivalente a cerca de 10% do faturamento daquele ano.
Do outro lado estavam milhares de trabalhadores desligados. Cerca de 2,3 mil funcionários demitidos em 1999 aguardavam o pagamento de verbas rescisórias. A falência, portanto, deixou de ser apenas uma questão empresarial. Tornou-se uma questão social.
O lento desaparecimento da fábrica
Enquanto a produção continuava, a liquidação dos bens enfrentava uma série de disputas judiciais.
As primeiras tentativas de venda de ativos foram questionadas e revertidas em diferentes instâncias. Somente em 2006 foi consolidada a venda de unidades desativadas de Gaspar e Rio do Sul. Os imóveis haviam sido avaliados em aproximadamente R$ 7,7 milhões, valor equivalente a apenas uma pequena parcela da dívida então estimada em cerca de R$ 240 milhões.
O tempo, entretanto, continuava passando. Em novembro de 2014, depois de uma reunião envolvendo o Judiciário, o Ministério Público, o sindicato dos trabalhadores, o síndico e a administração da massa, foi tomada a decisão pelo encerramento definitivo das atividades. A produção terminou em 20 de dezembro de 2014. Mais de seiscentos funcionários ainda estavam trabalhando naquele momento.
Em 2015, o complexo industrial foi arrematado por R$ 34,138 milhões. O grupo vencedor anunciou planos de reativação da fábrica, investimentos de pelo menos R$ 25 milhões, contratação inicial de 120 trabalhadores e o relançamento de marcas associadas à Sul Fabril. Em 2016, chegaram a ser anunciados planos de união com a Quality Malhas, de Brusque.
A retomada, entretanto, não prosperou. A arrematação acabou sendo desfeita diante da inadimplência do grupo vencedor. Em dezembro de 2018, um novo leilão trouxe outro capítulo. O complexo industrial foi arrematado pela Tex Cotton por R$ 34,35 milhões, além da aquisição de bens móveis. Dessa vez, o antigo parque fabril encontrou um novo destino industrial. As marcas seguiram outro caminho. Em 2021, o conjunto de marcas da Sul Fabril foi arrematado pela Lunelli por R$ 1,215 milhão. O patrimônio físico e as marcas, portanto, sobreviveram à empresa original, mas integrados a novas estruturas empresariais.
Em 2024, o processo de falência ainda não havia desaparecido dos registros judiciais. Com a reorganização da estrutura do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, o processo foi redistribuído para a Vara Regional de Falências, Recuperação Judicial e Extrajudicial de Jaraguá do Sul. O relatório daquele ano registrava a alienação de praticamente todos os bens arrecadados e a existência de sucessivos quadros de credores elaborados ao longo dos anos.
Havia, porém, algo ainda mais simbólico. Parte do acervo documental da empresa permanecia armazenada nas instalações do novo proprietário do parque fabril. São documentos funcionais de trabalhadores que remontam a 1947. Papéis que podem contar, talvez melhor do que qualquer estatística, a história das pessoas que fizeram aquela fábrica existir.
O fim de uma empresa, o fim de uma era
A história da Sul Fabril não pode ser reduzida a uma simples narrativa de sucesso e fracasso. Sua trajetória acompanha as próprias transformações da indústria brasileira. A empresa nasceu durante um período de industrialização acelerada, cresceu sob um modelo econômico mais protegido e atingiu seu auge justamente quando esse modelo começava a se esgotar.
Sua queda, por isso, não foi apenas o resultado de decisões internas equivocadas ou de um controle concentrado em poucas mãos. Foi também o retrato de um país que, em poucos anos, trocou o abrigo da proteção comercial pela exposição direta à concorrência global, e de uma cidade que descobriu, da forma mais dura, o preço de depender de um único setor.
O que a Sul Fabril deixou, no entanto, ultrapassa os balanços, os leilões e os intermináveis quadros de credores. Está nas fábricas que voltaram a funcionar sob novos nomes, nas marcas que sobreviveram integradas a outros grupos e, sobretudo, nos milhares de trabalhadores que ergueram aquele parque industrial — muitos dos quais ainda aguardam por aquilo que lhes era devido. Os documentos guardados desde 1947 são a prova silenciosa de que uma empresa é, antes de tudo, as pessoas que a fizeram existir.
Quando a última máquina parou, em 20 de dezembro de 2014, encerrou-se muito mais do que a produção de uma malharia. Encerrou-se um capítulo da própria história de Blumenau — aquele em que o som das sirenes marcava o compasso da cidade e em que uma fábrica catarinense vestia boa parte do Brasil. A gigante caiu, mas sua trajetória permanece como memória e como advertência: nenhum império, por maior que pareça, está imune ao tempo e às transformações do mundo ao seu redor.
