PF identifica como “Alexandre de Moraes BRASILIA” contato que recebeu notas de Vorcaro sobre PF, PGR e Banco Central
O Mesorregional obteve acesso a um relatório de 218 páginas produzido pela Polícia Federal (PF) que acrescenta um elemento de grande repercussão à investigação sobre a suposta rede de monitoramento e influência atribuída ao banqueiro Daniel Vorcaro: a PF conseguiu identificar o contato para o qual teriam sido encaminhadas notas contendo informações sobre movimentações do Banco Central e pedidos para “reforçar com Andrei e Paulo”.
O número destinatário estava registrado no aparelho apreendido com Vorcaro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Andrei, seria o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues e Paulo, o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
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A conclusão consta da Informação de Polícia Judiciária de Análise (IPJ-A) nº 3298613/2026, datada de 27 de agosto e encaminhada ao ministro André Mendonça. O documento foi elaborado a partir da análise forense do iPhone 17 Pro apreendido com Vorcaro durante a Operação Compliance Zero.
A revelação é especialmente relevante porque complementa as informações constantes no despacho de Mendonça que retirou o sigilo da nova investigação. Na decisão, o ministro havia registrado que as informações anteriores da PF reproduziam diálogos de Vorcaro com “outra pessoa, até então, não identificada”, e que as mensagens sustentariam a hipótese de conhecimento antecipado de investigações e de tentativa de intervenção perante autoridades públicas.
O novo relatório policial foi produzido justamente para avançar na identificação dos integrantes da suposta “rede de influência e monitoramento”.
PF reconstruiu tecnicamente o envio das mensagens
A identificação não decorreu apenas do nome encontrado na agenda.
A PF realizou uma reconstrução forense da utilização do aparelho. Segundo o relatório, Vorcaro mantinha textos no aplicativo bloco de “Notas”, fazia capturas de tela (print screen) e, segundos depois, abria o WhatsApp e enviava uma mensagem.
Os investigadores confrontaram horário de abertura do aplicativo “Notas”, momento do screenshot, geração automática de arquivos PDF pelo sistema, abertura do WhatsApp e registro do envio da mensagem. A perícia encontrou uma sequência temporal que, segundo a PF, estabelece correlação entre a captura das notas e o posterior envio ao interlocutor.
A Polícia Federal concluiu: “Os dados do sistema apontam que, segundos após dar um screenshot das notas […] DANIEL VORCARO envia uma mensagem de Whatsapp a ‘Alexandre de Moraes BRASILIA’.”
O terminal identificado pela perícia como destinatário das mensagens aparece no aparelho de Vorcaro atribuído ao contato “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
O relatório acrescenta que o mesmo número aparecia associado a quatro denominações: “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. Segundo a PF, esses contatos foram compartilhados com Vorcaro por Fábio Faria, em dezembro de 2023. Fábio Faria, seria o ex-ministro das Comunicações do governo de Jair Bolsonaro (PL), o atual marido de Patrícia Abravanel, uma das filhas de Silvio Santos.
“Importante reforçar com Andrei e Paulo”
Entre os conteúdos analisados está uma nota de 30 de outubro de 2025.
Nela, Vorcaro escreveu que teria recebido “informações informais e em confidencia de turma do banco central” de que integrantes da instituição estariam sob forte pressão em razão da atuação da PF e do Ministério Público.
Em seguida aparece uma das passagens mais sensíveis do material: “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra nao deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem”.
Vorcaro acrescentava que enviaria “os nomes que tem ido ao Bacen alegando que farao algo em breve”.
Posteriormente, ao analisar as pessoas mencionadas, a Polícia Federal registrou que “Andrei” poderia indicar Andrei Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e “Paulo”, Paulo Gonet, procurador-geral da República.
O aspecto que ganha nova dimensão com o relatório é justamente quem teria recebido essa nota.
Segundo a reconstrução forense, Vorcaro produziu o screenshot às 13h32min31s, no horário de Brasília, abriu imediatamente o WhatsApp e, às 13h33min03s, houve envio de mensagem para o terminal posteriormente identificado no aparelho como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.
Ou seja, o intervalo indicado pela perícia foi de 32 segundos.
Relação registrada desde 2023
A PF também encontrou elementos indicando que o relacionamento entre Vorcaro e o contato atribuído a Alexandre de Moraes não seria episódico.
O relatório possui capítulos específicos intitulados “Dos primeiros contatos registrados entre Daniel Vorcaro e o Ministro Alexandre de Moraes”, “Outros encontros entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes” e “De mensagens relacionadas com Alexandre de Moraes”.
Em novembro de 2024, por exemplo, Vorcaro escreveu à filha que estava “com alexandre moraes”. Em março de 2025, informou ao diretor do Banco Central Paulo Sérgio que estava “com Moraes aqui”.
Há outras referências encontradas pela PF. Em 19 de abril de 2025, Vorcaro escreveu à companheira Martha Graeff que estava “indo encontrar alexandre moraes aqui perto de casa”. Em 29 de abril, disse novamente estar com “Alexandre” e posteriormente identificou a pessoa como “alexandre moraes”.
Em maio daquele ano, há novos registros de encontros, e em 8 de agosto de 2025, diante de uma pergunta sobre viagem, Vorcaro respondeu que não deveria ir porque estava com “alexandre” e depois teria reunião com “Ciro”.
Escritório de Viviane de Moraes também aparece no relatório
Outro núcleo importante do documento envolve o escritório Barci de Moraes, ligado a Viviane de Moraes.
A própria estrutura do relatório policial reserva capítulos específicos para a assinatura de contratos com o escritório, cobranças de pagamentos e um segundo contrato.
Em uma das passagens, a PF registra que Vorcaro orientou Alberto Felix que pagamentos ao escritório Barci de Moraes não deveriam ser feitos por PIX. Na sequência, o relatório descreve um segundo contrato, datado de 12 de maio de 2025, firmado entre o escritório e a Vikings Participações Ltda.
Em outra discussão sobre esse contrato, Vorcaro teria afirmado, ao tratar de ativos envolvidos na operação: “Os ativos sao deles…ja”.
Esses elementos devem ser tratados separadamente das mensagens envolvendo o ministro: o relatório registra contratos e tratativas comerciais com o escritório, mas isso, isoladamente, não demonstra participação de Alexandre de Moraes nas relações contratuais.
Vorcaro também aparece organizando eventos com Moraes
O relatório ainda dedica diversas páginas a eventos realizados ou planejados em Londres.
Segundo a PF, em março de 2024 Vorcaro conversou sobre convite de Alexandre de Moraes para um evento em Londres. Posteriormente, aparecem tratativas sobre reunião na “casa do Alexandre” e logística envolvendo ministros do STF.
No planejamento de outro evento, em 2025, mensagens indicam participação atribuída ao ministro na definição de convidados e programação. Vorcaro escreveu que precisava aprovar uma lista com “alexandre”; outra interlocutora afirmou que o ministro já estava encaminhando confirmação de data e, posteriormente, que havia passado o dia com “Vivi Moraes e o ministro fechando o programa do evento”.
Por que o material foi parar em uma nova petição no STF
Essa sequência ajuda a explicar a decisão tomada agora por André Mendonça.
O ministro havia solicitado à Polícia Federal informações atualizadas especificamente sobre a identificação dos integrantes da suposta rede de influência e monitoramento gerenciada por Vorcaro, inclusive eventuais autoridades submetidas à competência originária do plenário do STF.
Foi em resposta a essa determinação que a PF produziu justamente a IPJ-A nº 3298613/2026.
Depois de receber o documento e outros anexos, Mendonça determinou que o material fosse retirado dos autos anteriores e colocado em uma petição autônoma, a PET 16.662.
O ministro afirmou que, independentemente da manifestação da Procuradoria-Geral da República, “o caminho inevitável” do processo leva ao plenário do STF, responsável por analisar os novos elementos.
Isso se relaciona diretamente ao artigo 5º, inciso I, do Regimento Interno do STF, reproduzido no próprio relatório policial, que atribui ao plenário competência originária envolvendo, entre outras autoridades, ministros do próprio Supremo e o procurador-geral da República.
PF faz ressalva importante sobre Moraes
Apesar da relevância dos elementos, o próprio relatório estabelece uma limitação que precisa constar da reportagem.
A Polícia Federal afirma expressamente que não realizou atos de aprofundamento investigativo direcionados a magistrados ou membros do Ministério Público, nem diligências destinadas especificamente a investigar possíveis ilícitos praticados por essas autoridades.
Segundo o documento, a análise ficou restrita aos “dados brutos e elementos informacionais” encontrados no material apreendido na Compliance Zero. A PF também ressalta que o relatório não é exaustivo e poderá sofrer alterações conforme o aprofundamento das investigações.
Portanto, o documento não permite afirmar que Alexandre de Moraes interferiu na Polícia Federal, na PGR ou no Banco Central, nem que tenha atendido aos pedidos atribuídos a Vorcaro.
O que o relatório policial estabelece, até este momento, é outro ponto: a perícia identificou como “Alexandre de Moraes BRASILIA” o contato associado ao número para o qual Vorcaro enviou mensagens segundos depois de produzir notas que mencionavam informações internas do Banco Central e a necessidade de “reforçar com Andrei e Paulo”.
É justamente esse novo conjunto de informações que agora deverá ser submetido à análise do plenário do Supremo.
Foto: Antonio Augusto / STF
