ColunistasDestaques

“A enchente e a dimensão emocional: quando o rio atingiu 17 metros”

Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Os artigos enviados por eleitores e colunistas não refletem a opinião do portal:

O desastre de 1880 não destruiu apenas casas. Para Hermann Blumenau, significou a perda de parte de sua história, de seus objetos e, pouco depois, o afastamento de sua própria família da colônia.

Em setembro de 1880, Blumenau enfrentou uma das maiores enchentes de sua história. O rio Itajaí-Açu atingiu aproximadamente 17 metros, avançando sobre boa parte da colônia e provocando uma destruição que marcou profundamente a população.

Entre os atingidos estava Hermann Bruno Otto Blumenau, fundador da colônia que carregava seu nome.

Sua residência ficava na antiga Rua das Palmeiras, hoje Alameda Duque de Caxias, em uma região central da colônia. A água atingiu a propriedade e destruiu a casa, levando consigo móveis, livros, documentos, objetos pessoais e parte do jardim que Hermann Blumenau cultivava com especial dedicação.

O próprio fundador registrou, em uma carta, a dimensão emocional daquela perda. Ao voltar ao local e encontrar a devastação, escreveu que, embora não se considerasse uma pessoa sensível, não conseguiu evitar que chorasse como uma criança diante da destruição. O jardim, que era seu espaço de lazer e descanso, havia praticamente desaparecido. Com ele foram também objetos que considerava insubstituíveis.

A dimensão da perda pode ser compreendida não apenas pelo valor material dos bens, mas pelo significado que aquela casa possuía.

Ali estava a vida privada do fundador.Ali estavam suas lembranças.

Ali estava também o resultado de anos de trabalho.

A enchente, portanto, não atingiu apenas o patrimônio de Hermann Blumenau. Atingiu sua intimidade.

Com a destruição da residência, Hermann Blumenau e sua família precisaram ser alojados na antiga sede administrativa da colônia, o Edifício da Direção da Colônia.

A mudança representava muito mais do que uma alteração de endereço.

A casa havia sido destruída e, junto com ela, desaparecia parte da estabilidade que a família possuía em Blumenau.

Sua esposa, Bertha Louise Repsold, permaneceu ainda algum tempo na colônia. Em 1882, porém, deixou Blumenau acompanhada das filhas e retornou à Alemanha.

Pouco depois, o próprio Hermann Blumenau também deixaria definitivamente a colônia.

Não é possível atribuir exclusivamente à enchente a decisão de Bertha de retornar à Alemanha. Havia outros fatores familiares e pessoais envolvidos. Mas a tragédia de 1880 tornou-se um dos episódios mais marcantes daquele período de ruptura na vida da família Blumenau.

É por isso que a enchente de 1880 merece ser lembrada não somente pelos metros que o Itajaí-Açu alcançou ou pelo número de propriedades atingidas.

Ela precisa ser lembrada também pelo que significou para aqueles que perderam aquilo que não aparece nas estatísticas.

Para Hermann Blumenau, o rio não levou apenas uma construção.

Levou uma parte de sua vida.

erro: Conteúdo Protegido !!