“Células nazistas no Brasil: como eram as reuniões”
Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Os artigos enviados por eleitores e colunistas não refletem a opinião do portal:
Antes de Hitler transformar a Europa em um campo de guerra, o cotidiano das células nazistas era marcado por uma rotina surpreendentemente organizada. Em Timbó, onde foi criada a primeira seção oficial do Partido Nazista no Brasil, as reuniões seguiam um protocolo rígido, muito semelhante ao adotado pelo NSDAP na Alemanha.
Os encontros começavam com a recepção dos participantes. Apenas filiados ou convidados autorizados podiam entrar. Muitos usavam o distintivo do partido preso à lapela do paletó e, após a ascensão de Hitler ao poder em 1933, a saudação “Heil Hitler” tornou-se um cumprimento habitual entre os presentes.
Na sequência, vinham os comunicados oficiais. Eram lidas orientações enviadas diretamente pela direção do Partido Nazista na Alemanha ou pelos responsáveis pela organização no Brasil. Também eram apresentados relatórios sobre novos filiados, campanhas de recrutamento, atividades locais e correspondências recebidas do exterior.
O momento central da reunião era dedicado à propaganda ideológica. Os participantes discutiam discursos de Adolf Hitler, liam trechos do Mein Kampf e analisavam reportagens do jornal alemão Deutscher Morgen, publicação voltada aos membros do partido residentes fora da Alemanha. Nessas conversas eram reforçados os princípios do nacional-socialismo, incluindo ideias ultranacionalistas e racistas que constituíam a base da ideologia nazista.
Havia ainda uma parte bastante burocrática. As células tratavam de questões administrativas, como a cobrança das contribuições financeiras dos filiados, a atualização dos registros dos membros e a organização de eventos sociais, comemorações e atividades culturais promovidas pela comunidade.
O encerramento também seguia um ritual. Em diversas células era executado o hino do Partido Nazista ou o hino nacional alemão. Depois da parte formal, muitos encontros terminavam com uma confraternização simples, acompanhada de café, cerveja ou refeições, fortalecendo os vínculos entre os integrantes.
Um aspecto importante, apontado pelos historiadores, é que essas reuniões não tinham, em geral, o objetivo de planejar ações militares ou atentados. Seu propósito principal era organizar o partido, difundir a propaganda nazista, manter os laços políticos com a Alemanha e fortalecer a identidade nacional-socialista entre cidadãos alemães que viviam no Brasil.
É justamente essa aparente normalidade que torna esse capítulo da história tão inquietante. As reuniões lembravam as de qualquer organização política ou associação civil: havia pauta, atas, contribuições financeiras, leitura de documentos e momentos de convivência. A diferença estava no conteúdo. Enquanto a estrutura parecia burocrática e rotineira, as ideias debatidas defendiam um regime autoritário, racista e antidemocrático que, poucos anos depois, mergulharia o mundo na maior tragédia do século XX.
