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“Quando falar alemão virou crime em Blumenau: a cicatriz silenciosa do Brasil de Getúlio Vargas”

Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Confira a sua apresentação:

“A imagem de Blumenau costuma ser leve. Festa, tradição, orgulho da origem. Mas houve um tempo em que ser quem se era doía.

Durante o governo de Getúlio Vargas, no período do Estado Novo, o governo lançou leis e decretos de nacionalização. Na prática, isso proibiu o uso de línguas estrangeiras em público, fechou escolas comunitárias e obrigou o uso exclusivo do português. Com a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, falar alemão passou a ser visto como suspeito.

Em Blumenau, isso entrou dentro de casa.

O alemão, que era língua de afeto, de família, de oração, virou motivo de medo. Foi proibido nas ruas, nas escolas, nas igrejas. Mas o mais duro não foi a lei. Foi o silêncio que ela criou.

Pais deixaram de falar com filhos na língua que sempre usaram. Avós não ensinaram mais suas palavras. Crianças aprenderam cedo que aquilo que vinha de casa precisava ser escondido. Não era só uma língua que se perdia. Era um pedaço da identidade.

Houve vergonha. Houve medo. Houve gente mudando o próprio nome para se proteger. Houve histórias que simplesmente pararam de ser contadas.

O objetivo era construir um país mais forte, mais unido. Mas a força veio com um custo alto. Em Blumenau, a unidade significou ruptura.

Hoje, muita coisa foi recuperada. A língua voltou, as tradições também. Mas nem tudo retorna. Há silêncios que atravessam gerações.Lembrar desse período não é viver no passado. É entender que nenhuma identidade precisa ser apagada para que outra exista. E que, quando uma cultura é obrigada a se calar, o que fica não é só silêncio. É cicatriz.”

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