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O autoritarismo deve pedir desculpas a Blumenau

Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Os artigos enviados por eleitores e colunistas não refletem a opinião do portal:

Imagine, por um instante, que o presidente Lula, Jair Bolsonaro, um dos filhos de Bolsonaro ou qualquer político decidisse enviar o Exército a Blumenau para fechar um clube da cidade. Imagine soldados cercando as instalações, impedindo a entrada de pessoas e transformando uma instituição civil em alvo de uma operação militar. Qual seria a reação da sociedade? Haveria indignação, manifestações, discursos inflamados e acusações de abuso de poder.

E com razão. Seria um absurdo.

Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, especialmente a partir de 1938 e com o agravamento da repressão durante a Segunda Guerra Mundial, a campanha de nacionalização impôs severas restrições às línguas e às manifestações culturais de comunidades de origem estrangeira. Em Blumenau, onde o alemão fazia parte da vida cotidiana, essa política atingiu escolas, igrejas, associações e diferentes espaços de convivência. A presença de um batalhão do Exército na cidade integrou o contexto dessa campanha.

Quando o poder público proíbe uma língua, não está apenas alterando o funcionamento das escolas ou determinando o idioma das repartições. Está entrando na intimidade das casas. Está dizendo às pessoas que uma parte de sua identidade deve ser escondida para que possam ser consideradas suficientemente brasileiras.

É nesse ponto que o autoritarismo revela sua face mais profunda: ele não se contenta em controlar comportamentos públicos. Ele tenta disciplinar a própria maneira como uma comunidade vive, recorda e transmite sua história.

O medo de falar alemão em público, a vigilância, as humilhações e as prisões deixaram marcas que não desapareceram simplesmente com o fim do Estado Novo. Pesquisas sobre a nacionalização em Santa Catarina documentam como a repressão atingiu a educação, o trabalho, a religiosidade, a cultura e a vida cotidiana.

Getúlio Vargas e o Estado Novo pertencem à história, mas as perguntas que esse período nos deixou continuam atuais. Até onde pode ir o poder de um governo? O que acontece quando a segurança nacional é utilizada para justificar a repressão? E quem responde pelas marcas deixadas nas comunidades quando o Estado transforma diferenças culturais em motivos de suspeita?

Blumenau conhece parte das respostas porque viveu as consequências dessas políticas.

Que essa memória sirva de advertência: nenhuma autoridade deveria ter o poder de transformar a língua de uma família em motivo de medo, a cultura de uma cidade em ameaça ou a identidade de seus cidadãos em algo que precise ser escondido.

Porque, quando um governo tenta silenciar uma comunidade inteira, não é apenas aquela comunidade que perde.

Perde a democracia. Perde a liberdade. E perde o próprio Brasil.

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