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“Quando a segunda guerra chegou a Blumenau”

Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Os artigos enviados por eleitores e colunistas não refletem a opinião do portal:

Quando se fala em Segunda Guerra Mundial, a imagem que normalmente vem à mente são os campos de batalha da Europa. Poucos imaginam que os efeitos daquele conflito atravessaram o Atlântico e transformaram profundamente a vida em Blumenau.

No início da década de 1930, Blumenau era uma cidade onde a língua alemã fazia parte do cotidiano. Escolas, clubes, igrejas, jornais e associações preservavam costumes trazidos pelos imigrantes e seus descendentes. A identidade cultural germânica era tão forte que muitos habitantes utilizavam o alemão com mais frequência do que o português.

Foi justamente nesse ambiente que o Partido Nazista encontrou terreno. Vejam, era uma população mais ligada à Alemanha que ao Brasil, também, antes da guerra via uma Alemanha empobrecida e depois uma Alemanha em movimento. A primeira seção oficial do partido nazista foi instalada em Timbó, então pertencente à região de Blumenau, em 1928. Nos anos seguintes, Santa Catarina tornou-se o estado brasileiro com uma das maiores concentrações de filiados, especialmente no Vale do Itajaí. Ainda assim, é importante distinguir os fatos: a existência de células nazistas não significa que toda a comunidade de origem alemã compartilhasse daquela ideologia. Pelo contrário, a maioria dos descendentes jamais participou do partido.

Enquanto isso, Getúlio Vargas conduzia uma política externa pragmática. Durante boa parte da década de 1930, o Brasil manteve relações diplomáticas tanto com as democracias ocidentais quanto com os regimes autoritários europeus. Existia uma ideia (não documentada) que Getúlio tinha afeições ao Regime de Mussolini, e até uma história que recebeu o filho de Mussolini no Brasil. O governo de Getúlio apresentava traços autoritários e inspirava-se em alguns modelos europeus de centralização do poder, mas Vargas evitou comprometer-se definitivamente com qualquer bloco.

A mudança ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial. Após sucessivos ataques de submarinos alemães contra navios brasileiros, o governo rompeu a neutralidade e declarou guerra às potências do Eixo em agosto de 1942. Poucos meses depois, Getúlio Vargas encontrou-se com o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt. O encontro consolidou a cooperação militar entre Brasil e Estados Unidos e abriu caminho para a participação brasileira ao lado dos Aliados, inclusive com a criação da Força Expedicionária Brasileira.

Para Blumenau, a mudança de rumo teve consequências imediatas.

O governo iniciou uma intensa campanha de nacionalização. O uso público da língua alemã foi proibido. Escolas comunitárias foram fechadas ou adaptadas ao ensino exclusivamente em português. Jornais em alemão deixaram de circular. Famílias passaram a evitar falar sua língua materna até mesmo dentro de casa, por medo de perseguições ou denúncias. Muitos sobrenomes foram abrasileirados e manifestações culturais tradicionais passaram a ser vistas com desconfiança. A guerra deixava de ser um acontecimento distante para atingir diretamente o cotidiano da cidade.

Ao longo das décadas, essa história foi simplificada por dois extremos.
Nenhuma dessas versões resiste à documentação histórica.

Os arquivos demonstram que existiram células do Partido Nazista na região, assim como simpatizantes e filiados. Também mostram que a esmagadora maioria da população descendente de alemães era formada por trabalhadores, agricultores, comerciantes e famílias que buscavam preservar sua cultura, sem participação política no regime alemão.

Compreender esse passado exige abandonar generalizações. Conhecer esses fatos é justamente o que permite separar identidade cultural, imigração e memória de uma ideologia totalitária que marcou tragicamente o século XX.

A historia existe para que os documentos substituam os mitos e para que a memória seja construída sobre evidências, e não sobre simplificações. É exatamente nesse ponto que Blumenau continua oferecendo uma das discussões históricas mais relevantes do Brasil. Na próxima semana falaremos como se comportava a célula nazista em timbó.

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