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“Quando o rio levou a casa de Dr. Blumenau”

Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Os artigos enviados por leitores e colunistas são publicados de maneira orgânica e não refletem a opinião do portal:

“A grande enchente de 1880 não poupou nem mesmo o homem que deu nome à cidade. Hermann Bruno Otto Blumenau, fundador da Colônia Blumenau, viu as águas do Itajaí Açu destruírem sua própria residência e transformarem profundamente a vida de sua família.

Na noite de 22 para 23 de setembro de 1880, Blumenau enfrentou uma das maiores enchentes de sua história. O Rio Itajaí Açu alcançou uma cota histórica de aproximadamente 17,10 metros, deixando grande parte da colônia tomada pelas águas. Casas, pontes, estradas, plantações e estruturas públicas foram atingidas pela força da correnteza.

A residência de Dr. Blumenau ficava na antiga Rua das Palmeiras, atual Alameda Duque de Caxias, na região central da cidade. A casa estava localizada nas proximidades da propriedade de Hermann Wendeburg, amigo e colaborador de Blumenau.

A construção era de madeira e ficava em uma área que acabou sendo atingida diretamente pela enchente. A força das águas foi suficiente para destruir completamente a residência. Não se perdeu apenas uma casa. Móveis, objetos pessoais, livros, documentos e lembranças da família também desapareceram com a inundação.

O episódio teve um impacto profundo sobre o próprio fundador. Dr. Blumenau precisou deixar sua residência e buscar abrigo na antiga sede da administração da colônia, edifício que fazia parte da estrutura administrativa do núcleo de Blumenau. Posteriormente, passou a permanecer no Hotel Schreep, também localizado na antiga Rua das Palmeiras.

A tragédia também marcou a vida de sua esposa, Bertha Louise Repsold. Bertha havia construído sua vida em Blumenau ao lado do marido e das filhas, mas as dificuldades enfrentadas após a enchente contribuíram para uma mudança definitiva nos rumos da família.

Em 14 de agosto de 1882, Bertha deixou Blumenau acompanhada pelas filhas e retornou à Alemanha. Hermann Blumenau ainda permaneceu em Santa Catarina por mais algum tempo, mas em 1884 também deixou definitivamente a colônia e voltou para a Alemanha.

A enchente de 1880, portanto, representa muito mais do que um episódio climático na história de Blumenau. Ela atingiu diretamente a família do fundador e destruiu o espaço onde Hermann Blumenau havia construído parte de sua vida.

Hoje, quando se fala nas grandes enchentes que marcaram Blumenau, é comum lembrar dos acontecimentos mais recentes. Porém, há quase 150 anos, o mesmo rio que atravessa a cidade já demonstrava sua força.

Em 1880, o Itajaí Açu chegou à casa de Dr. Blumenau. Levou sua residência, seus objetos e parte de suas memórias. Pouco tempo depois, sua esposa partiria para a Alemanha e, quatro anos após a enchente, o próprio fundador deixaria definitivamente a cidade que havia criado.

A casa desapareceu, mas a história permaneceu. E talvez esse seja um dos episódios mais simbólicos da trajetória de Blumenau: até mesmo o fundador precisou se curvar à força do rio que, desde os primeiros anos da colônia, determinava os limites entre a cidade e as águas.”

Foto: Divulgação / Arquivo Pessoal

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