A contradição conservadora sobre a quarentena

Artigo de Thiago Schulze, colunista do Mesorregional:

 “Enquanto eu for presidente, não haverá aborto”, disse o presidente Jair Bolsonaro, em abril deste ano. Segundo o presidente, a prática viola o direito à vida do nascituro, inexistindo, portanto, garantia à liberdade individual da mãe em retirar e ceifar a vida do inocente que carrega em seu ventre. Não me atreverei, neste momento, a analisar a existência ou não da vida, pois se trata de um assunto que merece coluna específica a ser dedicada posteriormente. Considerarei, na presente, a opinião de que desde o primeiro dia de gestação há vida, pois é como entendem as visões mais conservadoras.

Sobre a pandemia, no entanto, o líder de estado brasileiro posiciona-se de maneira contrária a qualquer tipo de quarentena, bem como à obrigatoriedade do uso de máscaras, sintetizando, a respeito das vidas que estão sendo levadas pelo vírus, que “não tem como evitar morte”.

A cidade de Blumenau, assim como a maioria das cidades de Santa Catarina, está com 100% de ocupação em seus leitos de UTI, o que significa que logo teremos de escolher qual inocente terá acesso ao leito e qual será removido do ventre estatal e largado para morrer. Tal colapso no sistema de saúde local estava previsto para acontecer em junho, fato adiado justamente em benefício da quarentena que, naquela oportunidade, fora adotada.

Considerada a opinião conservadora que defende o fim irrestrito das limitações oriundas da pandemia, tornando a morte de inocentes uma consequência aceitável em razão de um bem econômico maior, é preciso considerar que existe uma enorme contradição quando o mesmo grupo valoriza irrestritamente a vida de um também inocente em detrimento da condição financeira e da liberdade individual da mãe no caso de um aborto.

A opinião política não pode estar vinculada à velha máxima do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, tratam-se de medidas que precisam abarcar todos os pagadores de impostos de maneira justa e isonômica. Se você é contrário ao aborto pela justificativa de que tiraria a vida de um inocente, seja coerente e apoie a quarentena pelo menos enquanto estivermos com as Unidades de Tratamento Intensivas lotadas.

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