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Coluna de Felipe F. Schultze: O lado pouco comentado do Dr. Blumenau: a ligação com a maçonaria.

Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Confira o artigo desta semana:

Quando se fala em Hermann Blumenau, quase sempre aparece a imagem do fundador visionário, do químico alemão que atravessou o oceano para criar uma colônia no Vale do Itajaí. Mas existe um aspecto pouco comentado de sua trajetória que ajuda a entender melhor a cidade que surgiria dali: sua ligação com a maçonaria.

Há registros de que Hermann Bruno Otto Blumenau foi iniciado na maçonaria em 1845, enquanto estudava em Erlangen, na loja “Vereinigte Freimaurerloge” (“Loja Maçônica Unida”). Em meados do século XIX, especialmente nas lojas alemãs, as cerimônias costumavam acontecer em salões fechados, iluminados por velas, com uso de aventais, luvas brancas, espadas cerimoniais e símbolos ligados à arquitetura, como esquadro e compasso.

Blumenau foi maçom ainda na Alemanha, numa época em que a maçonaria não carregava apenas o ar de mistério que muitas vezes ganhou no imaginário popular. No século XIX, ela funcionava como uma rede de intelectuais, cientistas, comerciantes e políticos influenciados pelas ideias iluministas. Falava-se muito em ciência, educação, progresso e organização social.

Há registros de que Blumenau participou da criação de uma loja maçônica na própria cidade de Blumenau, a Zur Friedenspalme, ou “Palmeira da Paz”. O fato, porém, foi tratado durante muitos anos com certa discrição. Naquele momento inicial, provavelmente as reuniões ocupavam locais provisórios, escolhidos conforme a necessidade e a disponibilidade da colônia. O que se sabe com mais segurança é que essas reuniões estavam concentradas na área central da colônia original, que correspondia ao núcleo urbano que começou a se formar às margens do Rio Itajaí-Açu, na região onde hoje está o Centro de Blumenau.

 Blumenau gostava tanto de palmeiras incentivou o plantio da famosa alameda que mais tarde se transformaria em um dos cartões-postais da cidade. Não por acaso, a palmeira também aparece frequentemente como símbolo de paz, elevação e permanência em diferentes tradições europeias, inclusive em ambientes maçônicos do século XIX.

Talvez porque a maçonaria ainda desperte curiosidade, desconfiança e lendas. Mas, olhando para o contexto histórico, ela estava longe de ser algo incomum entre médicos, engenheiros, empresários e administradores europeus da época. Era quase um ponto de encontro das elites intelectuais do século XIX.

Também chama atenção como esse ambiente se conectava ao próprio Império brasileiro. Dom Pedro II mantinha diálogo próximo com setores considerados modernos e progressistas, muitos deles ligados à maçonaria. O Brasil imperial buscava atrair imigrantes qualificados e projetos de colonização organizados. Nesse cenário, Hermann Blumenau encontrou espaço político para desenvolver sua colônia.

Isso não significa que Blumenau tenha sido “uma cidade maçônica”, como algumas teorias gostam de exagerar. Mas ajuda a entender algo importante: a origem da cidade está profundamente ligada às ideias de planejamento, educação e organização comunitária trazidas da Europa daquele período.

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