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Coluna Felipe Gabriel Schultze entrevista: O sabor da memória, a história do Cafehaus

Confira mais um artigo do colunista Felipe Gabriel Schultze, formado em direito e historiador que escreve semanalmente ao Mesorregional, trazendo sempre opinião, fatos e curiosidades. Os artigos enviados por eleitores e colunistas não refletem a opinião do portal:

Nas férias de julho da minha infância, eu passava um dia com meu avô, somente eu e ele. Era um ritual que começava cedo e quase sempre terminava no Shopping Neumarkt. Almoçávamos juntos e, antes de voltar para casa, havia uma parada obrigatória no Caféhaus. Hoje, mais de duas décadas depois, basta provar o purê de batatas ou um dos doces da casa para que a lembrança volte inteira. Não é apenas o sabor que permanece. Permanecem as conversas, o carinho e a presença de quem já não está mais aqui.

Em conversa com Lothar Klemz, um dos administradores da empresa, ficou evidente que essa relação não surgiu por acaso. O Caféhaus nasceu em 1950 como hotel rodoviário.

A operação era totalmente familiar. Sete irmãos deixaram Ibirama para trabalhar no empreendimento. Faziam de tudo: recepcionavam hóspedes, limpavam quartos, lavavam roupas, organizavam a manutenção e cuidavam da administração. Não existiam departamentos. Existia uma família comprometida com um único objetivo: servir bem.

De acordo com Lothar, em entrevista exclusiva, as histórias daquela época ajudam a explicar por que o Hotel Glória se tornou uma referência. Uma delas é quase inacreditável. Conta Lothar que a limpeza era tão rigorosa que hóspedes chegavam a brincar dizendo que seria possível “beber água do vaso sanitário”, tamanho era o cuidado com a higiene. Em outro episódio, um viajante pediu que lavassem sua camisa. Quando a peça voltou, passada e impecável, ele custou a acreditar que aquela era realmente a sua roupa.

Mais do que curiosidades, esses relatos revelam uma filosofia de trabalho: excelência nos pequenos detalhes.

Décadas depois, surgiu outro desafio. O salão utilizado para servir o café da manhã aos hóspedes permanecia vazio durante boa parte do dia. A família decidiu transformá-lo em uma cafeteria aberta ao público. Assim nasceu, em 1977, o Caféhaus.

Hoje, administrar um negócio familiar com mais de sete décadas de história exige muito mais do que boas receitas. Exige governança, profissionalização e capacidade de inovar sem romper com os valores que construíram a reputação da marca.

Lothar explica que a empresa vive justamente esse momento de transição. A nova geração assume responsabilidades na gestão enquanto implanta práticas modernas de governança corporativa, preparando o negócio para o futuro sem perder a identidade familiar. As decisões continuam sendo tomadas em conjunto, mas agora apoiadas por processos mais profissionais, capazes de garantir continuidade para as próximas gerações.

Existe uma frase muito repetida no mundo dos negócios: “a primeira geração constrói, a segunda mantém e a terceira perde”. No caso do Hotel Glória e do Caféhaus, a história mostra que essa regra não precisa ser verdadeira.

Quando uma família consegue transformar seus valores em cultura organizacional, o patrimônio deixa de ser apenas um prédio ou uma marca. Passa a ser confiança.

E confiança, assim como uma boa receita de família, leva décadas para ser construída.

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