Depoimentos, tensão no plenário e falas contundentes marcam sessão de Comissão Processante em Blumenau
A Comissão Processante da Câmara de Vereadores de Blumenau avançou para fase final, nesta segunda-feira (4), em mais uma etapa do processo que apura possível quebra de decoro parlamentar do vereador afastado – pela Justiça – Almir Vieira (PP). A reunião foi marcada pela oitiva de testemunhas indicadas pela defesa e pelo interrogatório do próprio parlamentar, em sua primeira manifestação pública desde o início das investigações.
Ao todo, foram ouvidas oito das nove testemunhas previstas, sendo que uma delas não compareceu. A sessão foi conduzida pelo presidente da comissão, vereador Egídio Beckhauser (Republicanos), e contou com a presença dos demais membros do colegiado e do advogado de defesa, Diego de Oliveira.
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A maior parte das testemunhas ouvidas era composta por ex-servidores do gabinete de Almir Vieira, além de nomes externos ao círculo direto do parlamentar. Entre eles, o ex-secretário municipal de Esportes, Paulo Roberto Mundt, que foi o primeiro a depor.
O depoimento de Mundt gerou momentos de desconforto e tensão no plenário. Durante essa oitiva, aparentou-se um certo “desconforto” da presidência que proporcionou interrupções e tentativas de contenção de questionamentos direcionadas ao advogado de defesa, o que resultou em atritos pontuais entre as partes, com ameaças de indeferimentos de perguntas feitas pela defesa que pontou estar atuando no seu exercício amparado pela lei.

Outro depoimento relevante foi o de Juliano Luiz Bilau, presidente da Associação de Veteranos do 23º Batalhão de Infantaria. Ele esclareceu que a tradicional feijoada do 23º BI passou a ser organizada pela entidade, que contratou a empresa de eventos gastronômicos vinculada a Almir Vieira para a preparação dos pratos. Segundo Bilau, o pagamento foi realizado em espécie, informação que passou a integrar o conjunto de elementos analisados no processo.
Durante as oitivas, a estratégia da defesa ficou evidente ao repetir dois questionamentos principais a praticamente todas as testemunhas:
- se havia repasse de valores por parte de servidores ao vereador, o que foi negado por todos os depoentes;
- e se havia atrito pessoal entre Almir Vieira e o presidente da comissão, situação confirmada por diferentes testemunhas.
Já os membros da comissão limitaram-se, em sua maioria, a questionamentos protocolares, como a confirmação de vínculos com o serviço público e o conhecimento sobre a detenção do parlamentar no âmbito da investigação, perguntas feitas exclusivamente por Beckhauser.
Interrogatório marca primeira fala pública de Almir
Na sequência, foi realizado o interrogatório do vereador afastado, momento que marcou sua primeira manifestação pública desde os fatos que originaram o processo. Almir é militar da reserva e tem um método de falar que pode ser interpretado como “truculento” por algumas pessoas.
Em sua fala inicial, Almir Vieira buscou estabelecer um posicionamento institucional, afirmando que não possui inimizades dentro da Câmara. “Eu não tenho inimizade com ninguém. Não vim para essa casa para fazer amizade, vim para defender o direito da população”, declarou.
Ao abordar a investigação, o parlamentar afirmou ter conhecimento prévio das apurações e relatou que o caso teria se desenvolvido após divergências administrativas internas, especialmente relacionadas à assinatura de documentos e responsabilidades de gestão.
Ele também destacou que a ação policial foi legítima, mas afirmou que o processo teria sido motivado por denúncias e conflitos anteriores. “A polícia fez o papel dela. Qualquer denúncia deve ser apurada”, disse.
Um dos trechos do depoimento ocorreu quando o vereador comentou os desdobramentos da operação policial: “Fui dormir herói, acordei bandido”, afirmou, ao relatar o impacto das investigações em sua imagem pública. Ele ponderou também que o presidente da Comissão estaria “sabendo de tudo da operação antes mesmo dela acontecer…”
Vieira também reforçou que está colaborando com as apurações e colocou à disposição seus dados pessoais para análise: “Minha conta está aberta desde o início da investigação. Quebra de sigilo bancário, telefônico, tudo aberto”, declarou.
Explicação sobre valores em dinheiro
Questionado sobre valores apreendidos em sua residência, estimados em cerca de R$ 30 mil, Almir Vieira afirmou que o dinheiro era destinado à compra de insumos para eventos gastronômicos, atividade que exerce paralelamente à atuação política.
“Esse valor representa um ou dois eventos. Eu preciso ter reserva para comprar insumos”, explicou, acrescentando que os recursos estão declarados no Imposto de Renda.
Operação Happy Nation e condução policial
Sobre o episódio ocorrido em 3 de fevereiro de 2026, no âmbito da Operação Happy Nation, o vereador detalhou que foi conduzido pela Polícia ao 23º Batalhão de Infantaria e posteriormente ao seu gabinete para cumprimento de mandados de busca e apreensão.
Ele afirmou que acompanhou os procedimentos e reiterou não ter nada a esconder.
Possibilidade de renúncia
Ao final do interrogatório, Almir Vieira adotou um tom direto ao tratar das possíveis consequências do processo: “Se tiver culpabilidade, eu mesmo peço renúncia”, afirmou.
Encerramento da fase de instrução
Com a realização das oitivas e do interrogatório, a Comissão Processante encerra a fase de instrução do processo, etapa em que são coletadas provas e depoimentos.
A defesa foi formalmente intimada a apresentar suas alegações finais por escrito no prazo de cinco dias. Após essa etapa, o processo retorna à comissão para elaboração do parecer final, que poderá indicar o arquivamento ou a continuidade das medidas cabíveis no âmbito do Legislativo.
