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“E como fica o neurodivergente adulto?”

Artigo de autoria da fundadora da ABLUPAA (Associação Blumenauense de Pais e Amigos dos Autistas), Josiane Menestrina, pré-candidata à deputado estadual pelo MDB:

“Quando recebi, aos 37 anos, meu diagnóstico de autismo e TDAH, pareceu-me que muita coisa finalmente se encaixou. Havia uma explicação para certas dificuldades que, durante anos, eu me esforçava para mascarar, ainda que isso trouxesse um peso enorme.

Quando uma família começa a investigar transtornos do neurodesenvolvimento nos filhos, não é incomum que os próprios pais passem a reconhecer características semelhantes em si mesmos.

Um bom exemplo, quando falamos de autismo, é o que a ciência chama de “fenótipo ampliado do autismo”, expressão utilizada para descrever características associadas ao espectro que podem aparecer de forma mais leve em familiares de pessoas autistas, mesmo sem necessariamente configurar um diagnóstico.

Porém, a possibilidade de o próprio pai ou a mãe também ser neurodivergente existe e precisa ser considerada. Um estudo publicado no JAMA estimou a herdabilidade do TEA em cerca de 83%. Isso não significa que “83% do autismo de uma criança veio dos pais”, mas que, naquela população estudada, grande parte da variação do risco de autismo estava associada a fatores genéticos.

Durante décadas, muitos chegaram à vida adulta sem diagnóstico e sem compreender determinadas características e dificuldades. O sofrimento existe, mas nem sempre é reconhecido como tal. Em vez disso, essas pessoas podem passar uma vida sendo chamadas de “sem filtro”, “grosseiras”, “ingênuas”, “dramáticas”, “estranhas”, “preguiçosas”, “antissociais” ou simplesmente “difíceis”.

Quando esses julgamentos se acumulam durante anos, eles podem deixar marcas. A sobrecarga, associada à rejeição, ao estigma, à tentativa constante de se adequar e à falta de compreensão, pode contribuir para sofrimento psíquico e está relacionada a maior vulnerabilidade a problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.

Por isso, para muitos adultos, descobrir uma neurodivergência não significa receber um novo rótulo, mas finalmente encontrar uma explicação para uma vida inteira sendo rotulado pelos outros.

E se você se identificou com este texto?

O primeiro passo não é fazer um autodiagnóstico. Também não significa que toda dificuldade social, distração, sensibilidade ou necessidade de rotina seja necessariamente sinal de autismo, TDAH ou outra condição.

Se determinadas dificuldades acompanham você desde a infância, interferem nos seus relacionamentos, no trabalho, nos estudos ou na sua qualidade de vida, ou se o diagnóstico de um filho fez você reconhecer em si características que sempre estiveram presentes, procurar um profissional qualificado pode ser um caminho.

O que muda na prática é que a compreensão correta de si pode abrir caminhos para estratégias, adaptações, tratamento quando necessário e, principalmente, para uma vida com menos culpa por aquilo que durante tantos anos você simplesmente não conseguia explicar.”

Josi Menestrina
Autista e mãe Atipica, fundadora da OSC ABlupaa.

Fontes e referências científicas

SANDIN, Sven; LICHTENSTEIN, Paul; KUJA-HALKOLA, Ralf; et al. The Heritability of Autism Spectrum Disorder. JAMA, v. 318, n. 12, p. 1182–1184, 2017. DOI: 10.1001/jama.2017.12141.

FARAONE, Stephen V.; LARSSON, Henrik. Genetics of attention deficit hyperactivity disorder. Molecular Psychiatry, v. 24, p. 562–575, 2019. DOI: 10.1038/s41380-018-0070-0.

RUBENSTEIN, Eric; CHAWLA, Devika. Broader Autism Phenotype in Parents of Children with Autism: A Systematic Review of Percentage Estimates. Journal of Child and Family Studies, v. 27, p. 1705–1720, 2018. DOI: 10.1007/s10826-018-1026-3.

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