Indígenas voltam a ocupar Barragem de José Boiteux após conflito com Jorginho Mello
Parte da comunidade indígena Laklãnõ/Xokleng, no Alto Vale do Itajaí, voltou a ocupar a área da Barragem de José Boiteux, considerada a maior estrutura de contenção de cheias da América Latina, poucos dias após o episódio envolvendo o governador Jorginho Mello (PL) durante uma visita às obras de recuperação das comportas.
Desde então, indígenas mantêm um acampamento nas proximidades da barragem e afirmam que impedirão a circulação de máquinas e visitas não autorizadas dentro do território indígena. Segundo as lideranças, a medida busca pressionar o Governo do Estado pelo cumprimento de compromissos assumidos durante as negociações relacionadas às obras.
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Em manifestação divulgada nas redes sociais, a cacique-presidente da Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng, Fabiana, criticou a forma como ocorreu a visita do governador, afirmando que a comunidade não foi comunicada previamente.
Segundo ela, a indignação aumentou após o desentendimento registrado durante a agenda do governador. “Não foi comunicado à liderança, não foi comunicado aos demais sobre essa vinda do governador. O governador entrou dentro do território e houve um manifesto da comunidade, indignada com as obras inacabadas dentro do território.” afirmou em um vídeo publicado nas redes sociais.
A cacique Fabiana também afirmou que mulheres indígenas foram alvo de palavras ofensivas durante a discussão. “A dignidade da nossa gente foi violada diante das palavras de baixo calão que o governador desferiu contra nós, mulheres indígenas. Contra também uma liderança que estava tentando dialogar com ele e ele não aceitou.”
A liderança ressaltou ainda que a barragem permaneceu mais de duas décadas sem intervenções estruturais. “Essa barragem ficou mais de 20 anos sem reforma. Então, por que hoje o governador vem nos acusar de ter depredado essa barragem? Isso não é culpa da comunidade indígena, mas do próprio governo, que só agora lembrou que existe uma barragem para reformar.”
Os indígenas afirmam que qualquer visita institucional ao território deverá ocorrer mediante autorização da comunidade. “Querem vir? Venham, mas peçam autorização. Aqui nós temos leis, temos nossa identidade e não vamos permitir que alguém faça o que quiser dentro do nosso território.”
Governo afirma que obras seguem normalmente
Por outro lado, o Governo de Santa Catarina sustenta que todas as obras previstas estão em andamento.
Segundo o Estado, além da construção das 20 moradias inicialmente previstas nos acordos firmados com a comunidade indígena, o projeto foi ampliado e contempla atualmente a construção de 40 casas.
O governo também afirma que os demais compromissos seguem sendo executados dentro do cronograma estabelecido.
Obra é considerada estratégica
A recuperação da Barragem de José Boiteux é considerada uma das principais ações estruturantes para reduzir os impactos das enchentes em dezenas de municípios do Vale do Itajaí.
Ao mesmo tempo, as intervenções continuam sendo alvo de debates entre o Governo do Estado e lideranças indígenas, que reivindicam o cumprimento integral dos acordos relacionados às compensações sociais e aos impactos das obras sobre a Terra Indígena Laklãnõ/Xokleng.
Vale lembrar que os impasses históricos na Barragem Norte, em José Boiteux, envolvem o conflito entre a proteção contra cheias para o Vale do Itajaí e os direitos territoriais.
A estrutura, construída nos anos 1970 pela União na Terra Indígena Laklano, alaga parte do território e enfrenta décadas de tensão devido a problemas estruturais, falta de manutenção, promessas de indenizações não cumpridas pelo Estado e protestos indígenas para impedir a operação das comportas.
Enquanto o governo federal permanece de olhos vendados sobre o assunto, o caso segue mobilizando autoridades estaduais, representantes indígenas e órgãos responsáveis pelas obras.
Fotos: Reprodução / Redes Sociais
