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Com esquerda dividida,Piñera é favorito no Chile

Por Lucas Rizzi e Tatiana Girardi  da Agência ANSA:  Sob uma aura de inevitabilidade, o Chile vai às urnas neste domingo (19) para o primeiro turno das eleições presidenciais, que têm como favorito o ex-mandatário Sebastián Piñera (Chile Vamos), beneficiado pelo impopular segundo governo de Michelle Bachelet e pela fragmentação da esquerda.

Presidente entre 2010 e 2014, justamente entre os dois mandatos da líder socialista, o empresário de 67 anos lidera as pesquisas com cerca de 35% das intenções de voto, apesar de ter deixado o poder com sua avaliação em baixa. Tido como um dos homens mais ricos do país, Piñera é dono de um patrimônio estimado em US$ 2,7 bilhões, segundo a revista “Forbes”.

Com diploma em engenharia comercial pela Pontifícia Universidade Católica do Chile e PhD em economia pela Universidade de Harvard, fundou uma empresa de cartões de crédito em 1976 e foi dono da emissora de TV “Chilevisión”, de 26% da companhia aérea LAN (que viria a se fundir com a TAM) e do Colo-Colo, clube de futebol mais popular do país.

Ao ser eleito presidente, se desfez dessas participações e confiou parte de sua fortuna a um “blind trust”, fundo que administra ativos sem a interferência de seus proprietários, mas acusações de conflito de interesses permeiam sua vida na política. Seu período no poder também foi marcado pelo acidente que soterrou 33 trabalhadores em uma mina a 700 metros de profundidade em San José.

O incidente, ocorrido em agosto de 2010, causou comoção mundial, especialmente no resgate dos mineiros, realizado mais de dois meses depois. Seu governo, iniciado em março daquele ano, também teve de lidar com a reconstrução das zonas destruídas pelo terremoto de magnitude 8,8 na escala Richter que matara mais de 500 pessoas no centro do país em fevereiro.

Piñera é favorito, mas não entusiasma os chilenos. “A fragmentação da esquerda explica a provável vitória de Piñera, mais do que a tendência de crescimento da direita na América Latina. Um candidato unindo toda a esquerda poderia ter sido mais competitivo”, afirma o coordenador do MBA em Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel. 

De fato, dois oito candidatos a presidente do Chile, cinco são de centro-esquerda ou esquerda, e uma, Carolina Goic, da Democracia Cristã, que apoiou as duas eleições de Bachelet. O principal deles é o senador Alejandro Guillier, da coalizão governista Nova Maioria e que aparece em segundo nas pesquisas, com 15% das intenções de voto.

Também jornalista, Guillier lutará para tentar manter o legado de Bachelet no Chile e, apesar de todas as sondagens preverem sua derrota no segundo turno para Piñera, ele promete focar seu governo nas conquistas sociais dos últimos anos. Entre seus principais motes da campanha, está o aprofundamento da reforma na educação, iniciada por Bachelet em seu segundo mandato, e a alteração da Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

Antes de se candidatar à Presidência, Guillier, 64 anos, contava com três décadas de jornalismo televisivo e de rádio, tendo atuado desde a produção de matérias até a apresentação de telejornais. Uma das ironias da campanha de 2017 é que, durante três anos, o candidato da centro-esquerda trabalhou na emissora “Chilevisión”, que tinha Piñera como dono. Na política há apenas quatro anos, o também sociólogo busca usar sua popularidade como forma de angariar votos. Guillier tornou-se senador em 2014 e sempre contou com um forte apoio do Partido Radical, que faz parte da coalizão governista. Ele disputaria as primárias da Nova Maioria, mas a votação acabou cancelada após a retirada da candidatura do ex-presidente Ricardo Lagos e a decisão da Democracia Cristã de lançar sua própria postulante ao Palácio de la Moneda.

Alguns aliados, à época da escolha, criticaram a decisão da coalizão de seguir em frente com Guillier. O senador socialista Carlos Montes chegou a classificar a opção como um “erro histórico” da centro-esquerda chilena.

Líderes jovens – Uma das responsáveis por roubar intenções de voto do candidato governista é Beatriz Sánchez, jornalista de 46 anos que disputa a Presidência pela coalizão de esquerda Frente Ampla. No entanto, ela também não empolga.

Sánchez tem apenas 8,5% nas pesquisas e seu nome só virou presidenciável porque os principais líderes das manifestações estudantis de 2011, Giorgio Jackson, Gabriel Boric e Camila Vallejo, não podem disputar o cargo por ter menos de 40 anos.

“Alguns dos líderes mais carismáticos da esquerda não conseguiram se candidatar, isso explica a fraqueza da esquerda no Chile. Se Jackson fizer um bom trabalho, é uma pessoa que pode ser presidente daqui a 10 anos. Mas essa geração ainda é muito jovem”, explica Stuenkel.

O quarto colocado nas pesquisas, com cerca de 8% das intenções de voto, também é de esquerda: Marco Enríquez-Ominami.

Dissidente socialista, ele é um dos fundadores do Partido Progressista e tem uma longa militância de centro-esquerda.

Ominami é filho de um médico e de uma jornalista filiados ao Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR), reconhecido como partido no governo de Salvador Allende, mas que voltou à clandestinidade assim que Pinochet assumiu o poder.

Aos cinco meses de idade, ele foi exilado com os pais pelo regime militar para a França. Além de atuar na política, o candidato é cineasta e já foi eleito deputado federal. É considerado um “rebelde” da esquerda do país e tenta buscar votos no enfraquecimento do Partido Socialista. Além de Piñera, Guillier, Sánchez, Ominami e Goic, o Palácio de la Moneda é disputado por José Antonio Kast (direita), Alejandro Navarro (esquerda) e Eduardo Artés (esquerda).

Para ser eleito no primeiro turno, um candidato precisa obter pelo menos 50% dos votos. Caso ninguém alcance esse resultado, haverá um segundo turno, em 17 de dezembro. Mas uma coisa é certa: o vencedor herdará um país difícil de governar, como fica claro nos fracassos dos últimos presidentes em fazer seus sucessores.

“É muito difícil governar o Chile. Em reuniões, não é incomum ouvir nos bastidores a frase de que o Chile é um país ingovernável. É difícil avançar com projetos maiores, difícil conseguir maioria no Congresso. Isso gera frustração”, completa o professor da FGV.

 

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