O desafio da gestão da velocidade e da responsabilidade

Quem sabe no dia em que perguntarmos às pessoas o que de pior pode acontecer a quem dirige acima da velocidade e ouvirmos como resposta: “eu poderia matar alguém” e não um “eu seria multado” pudéssemos acreditar que segurança no trânsito e preocupação com a vida são levadas a sério. Confira a o artigo de Marcia Pontes, colunista do Notícias Vale do Itajaí:

 

Em todo o mundo um dos maiores desafios tem sido fazer a gestão da velocidade nas vias. A preocupação é tanta que a Organização Mundial da Saúde elaborou um manual de segurança viária para gestores e profissionais da área em parceria com a Fia Foundation, com a Global Road Safety and Society e Banco Mundial com distribuição pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS). O objetivo é fazer os motoristas e os gestores compreenderem em todo o mundo que quanto maior a velocidade, maiores serão as lesões, a gravidade do acidente e as mortes. Para países pobres de dinheiro e de mentalidade para segurança viária como o Brasil, o custo com acidentes de trânsito pode chegar até 2% do Produto Interno Bruto (PIB).

O tempo de reação até a parada total do veículo será bem menor quando a velocidade é mais baixa. Em atropelamentos a 32km/h apenas 5% dos pedestres morre, 65% sofrem lesões e 30% sobrevivem ilesos. Quando e velocidade sobe para 48km/h, aumentam para 45% os óbitos, para 50% as lesões e apenas 5% sobrevivem ilesos. Acima de 60km/h, 85% dos pedestres morrem, 15% sofrem lesões e nenhum deles sobrevive ileso.

Desde que se fabricou o primeiro carro o melhor redutor de velocidade está ao alcance dos pés dos motoristas e chama-se pedal de freio, mas por uma complexidade de questões ligadas ao comportamento muitos abusam, infringem as leis de trânsito e passam a léguas do entendimento e do bom senso, seja porque aceleram demais, seja porque não admitem ser penalizados pelo excesso de velocidade e nem pelo mal que causam aos outros.

O tema é tão preocupante que chega a alimentar o imaginário de muitos que sugerem soluções fantasiosas como uma lombada em cada esquina, faixas elevadas onde a lei não permite, leis inconstitucionais que passam por cima do Código de Trânsito Brasileiro, das resoluções do Contran e da própria Constituição na esperança de derrubar a lei válida para imperar a ilegalidade.

Por outro lado, focar a atenção somente no excesso de velocidade para além dos limites das placas também não resolve. A velocidade excessiva ou inadequada, quando o motorista dirige abaixo da velocidade regulamentar, mas rápido demais para as condições do momento, são o que causam as colisões traseiras e os engavetamentos.

Em todo o mundo medidas impopulares para quem não alivia o pé do acelerador têm sido aplicadas em busca da redução de velocidade. Elementos físicos como redutores de velocidade precisam ser bem pensados nas cidades com altas taxas de motorização e ruas que não têm mais para onde se expandir para que a já tão complicada fluidez do trânsito não piore.

“Lombadas físicas” ou ondulações transversais estão sendo abolidas porque aumentam a poluição, acabam com a suspensão dos veículos e danificam o pavimento devido ao peso de veículos grandes, o que se aumenta ainda mais o custo de manutenção das vias em época de ruas esburacadas e pintura de solo apagada.

Muito criteriosamente e seguindo as leis de trânsito e resoluções do Contran instalam-se algumas soluções para a segurança dos pedestres como as faixas de travessia elevadas (que não são redutores de velocidade) e as ilhas de segurança. Na Alameda, a poucos meses, um motorista provocou um capotamento ao se aproximar em alta velocidade de uma faixa elevada bem sinalizada. Freou seco e capotou o carro. Prova de que não existe solução milagrosa se não aliviar o pé no acelerador. 

As ilhas de segurança, por sua vez, foram projetadas para dar segurança ao pedestre, mas acabam os colocando em risco, muitas vezes, devido às colisões por conta dos que aceleram além do permitido.  A nova sinalização tipo lápis na rua Emílio Talmann, que usa as marcas de canalização para forçar a redução de velocidade, é um dispositivo seguro, eficiente, eficaz, força em até 30% a redução da velocidade pelo motorista e mesmo assim, mais parecendo em forma de protesto ou para destruir os elementos de sinalização, muitos motoristas insistem em passar em zigue zague em um espaço que dá para passar com folga um caminhão.

 

Lombada física funciona?

Vejam os exemplos das lombadas “físicas” ou eletrônicas: onde elas existem o condutor reduz desnecessariamente a 20km/h, mas passando os obstáculos voltam a acelerar e muitos provocam o acidente, matam ou morrem a metros de distância delas. Redutor de velocidade não educa ninguém, não existe nada de educativo ou de conscientizador nele, mas sim, de condicionante: o motorista se condiciona a reduzir onde tem lombada física ou eletrônica. Passou a lombada ou outros tipos de redutores tome acelerar de novo!

Vejamos a Via Expressa, uma via rápida cuja velocidade permitida é de 80km/h, mas onde tem sido comum a fiscalização flagrar velocidades acima de 100km/h. Este é um exemplo de via que jamais poderá ter uma faixa elevada, por exemplo, seja porque trata-se de uma via rápida onde não circulam pedestres, seja porque a Resolução 495/2014 só permite este tipo de dispositivo onde a velocidade é de 40km/h, onde existe calçada, onde não tenham curvas e nem subidas íngremes. Se com fiscalização é ruim para alguns, imagine sem ela!

 

Mudar o pensamento, os comportamentos e as atitudes

Todos sabem, incontinenti, que o problema do excesso de velocidade está no comportamento, no egoísmo dos motoristas, no excesso de confiança, na fragilidade da fiscalização e na crença na impunidade. Para piorar, uma parcela infratora que desrespeita as leis de trânsito e do bom senso dispara o discurso de indústria da multa, ignorando o fato que radar não multa, apenas registra um fato: o excesso de velocidade acima do permitido.

O discurso de indústria da multa parece ser inflamado com o objetivo de induzir vergonhosamente a população infratora e não infratora a erro. Afinal, você sabia que no Portal da Transparência da Prefeitura Municipal de Blumenau as consultas à arrecadação com multa de trânsito não está entre as 10 mais acessadas? A curiosidade maior do blumenauense está, pela ordem: em saber o salário de quem trabalha na prefeitura, consulta às licitações, depois a ordem da fila única de cirurgias, a agenda de licitações, as tabelas salariais, a planilha eletrônica de licitações, depois empenhos, contratos, concursos públicos e todos os tipos de arrecadação anual da prefeitura.

Você sabia que não chega a 15% o total de multas aplicadas em comparação com a quantidade de condutores habilitados em Blumenau? Sabia que muitas das multas são anuladas quando o condutor recorre, apresenta recurso e recebe o dinheiro de volta? Sabia também que a quantidade de motoristas que “paga para não se incomodar” ou por comodismo, para não perder tempo, para aproveitar o desconto porque sabe que errou mesmo e aceitou a punição é bem maior do que os motoristas que apresentam recurso porque o dispensam ou porque não sabem fazer por desconhecimento das leis de trânsito?

Isso nos faz pensar no quanto a população precisa ser melhor informada, orientada, estimulada a aprendizagem de comportamentos seguros e preventivos no trânsito, e também sobre a legislação de trânsito. As pessoas precisam de estímulos, de esclarecimento e de orientação para refletirem sobre os seus comportamentos e sobre os riscos de dirigirem acima da velocidade permitida ou com velocidade inadequada, ainda que dentro da permitida. É isso que salva vidas.

As pessoas precisam saber o que é faixa elevada (para a segurança do pedestre) e o que são os redutores de velocidade (para forçar os motoristas a reduzirem a velocidade). Precisam saber como fazer defesas e recursos de infrações; precisam aprender a não se distraírem no trânsito, a não dirigir embriagados, a não usarem o celular enquanto dirigem porque aumenta em 400% o risco de acidentes. As pessoas precisam saber que velocidade demais causa o efeito túnel que diminui o foco, a percepção, o campo de visão e o tempo de parada total do veículo.

Precisamos de mais e mais campanhas e ações educativas e preventivas sérias e sustentáveis voltadas para o esclarecimento. Precisamos ver as pessoas com a mesma sede de acabar com a impunidade no trânsito que elas têm para abaixar a maioridade penal ou para ver mofando na cadeia o assassino que tirou a vida de alguém com uma arma de fogo. Morrem mais pessoas no trânsito do que por arma de fogo no país e em Blumenau.

Precisamos reformar o nosso pensamento, o nosso discurso e as nossas atitudes, pois quem vai contra a fiscalização das leis que precisam ser cumpridas (e toda não lei não cumprida requer penalização) induz a população ao erro e com os seus propósitos egoístas defendem e propagam o sentimento de impunidade. O que será que essas pessoas desejam para o condutor que as coloca em risco no trânsito? Se essas pessoas tivessem um filho ou alguém pelos quais sejam capazes de sentir amor e perdessem a pessoa que amam pelos pés de chumbo de um motorista que acelerou demais o que elas desejariam para esse motorista além da punição exemplar? 

Na literatura científica a Engenharia de Tráfego, a Fiscalização e a Educação para o Trânsito formam o tripé de um trânsito seguro. Mas, o grande mal de muitas pessoas é pensar no dinheiro e na multa antes da segurança.

Quem sabe no dia em que perguntarmos às pessoas o que de pior pode acontecer a quem dirige acima da velocidade e ouvirmos como resposta: “eu poderia matar alguém” e não um “eu seria multado” pudéssemos acreditar que segurança no trânsito e preocupação com a vida são levadas a sério.

 

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