Vídeo sobre o Morro Dona Edith provoca reação de policiais e moradores em Blumenau
Um vídeo eleitoral gravado nas proximidades do Morro Dona Edith, no bairro Velha Grande, em Blumenau, provocou forte repercussão nas redes sociais e manifestações de moradores e profissionais das forças de segurança. O conteúdo foi publicado por Felipe Barcellos, vereador de Florianópolis e candidato a deputado federal, e Tulio Pfuetznreiter, morador de Indaial e candidato ao Senado, ambos pelo recém-criado Partido Missão.
Os candidatos foram até o acesso à Rua da Comunidade, na região popularmente conhecida como “pé” do Morro Dona Edith, para abordar segurança pública, tráfico de drogas e atuação do poder público.
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O problema apontado por quem conhece a realidade da região está em afirmações feitas no vídeo que foram diretamente contestadas por policiais e moradores, especialmente a alegação da existência de barricadas e de crianças participando delas armadas.
O Mesorregional também analisou as referências jornalísticas utilizadas na publicação e identificou que ao menos um dos casos apresentados pelos candidatos como argumento para a narrativa do vídeo não ocorreu no Morro Dona Edith.
“Aqui tem até barricada”, afirma candidato
No início do vídeo, os candidatos apresentam a região como um dos principais locais utilizados pelo tráfico em Blumenau. “Aqui é um dos principais pontos onde o tráfico se esconde em Blumenau, que está aumentando ano após ano em Blumenau”, afirmam.
Segundo eles, denúncias recebidas de seguidores teriam motivado a gravação. No vídeo apresentado, entretanto, não são exibidas estatísticas oficiais que demonstrem o alegado crescimento anual do tráfico na cidade. Em determinado momento, Felipe Barcelos afirma: “Aqui tem até barricada.”
Tulio Pfuetznreiter complementa: “Sim! Aqui não é Rio de Janeiro, aqui é Santa Catarina. Aqui crianças são cooptadas para o tráfico de drogas. Eles participam das barricadas e com armas nas mãos.”
A existência de tráfico de drogas e de operações policiais na região não é uma realidade desconhecida da imprensa ou das próprias forças de segurança. O ponto que provocou contestação foi a descrição de uma dinâmica envolvendo barricadas e crianças armadas como se fosse uma característica constatada no local.
O Mesorregional acompanha há anos ocorrências e operações policiais em Blumenau e não possui registros próprios de barricadas instaladas por organizações criminosas nas ruas da cidade nos moldes descritos no vídeo, tão pouco ali naquele local.
Policial militar contesta narrativa
A repercussão chegou a integrantes das forças de segurança. Um sargento da Polícia Militar de Blumenau publicou uma manifestação em suas próprias redes sociais classificando o conteúdo como exagerado. “Vídeo bem exagerado sobre Blumenau para fazer política. Não há ocorrência de barricadas e presença de arma de fogo não é rotina, mas exceção […] conteúdo é bem sensacionalista e feito por quem nada conhece do cenário”, escreveu o sargento Diego Maciel em sua publicação.
A crítica ganhou ainda mais relevância quando um policial civil que afirmou ter participado de operações realizadas naquela região respondeu diretamente à publicação dos candidatos. “Não fala besteira. Sou policial e participei dessas operações. Inclusive o delegado da época era o Egidio. Nunca teve barricada aí no morro. O que há sim é forte atuação do tráfico de drogas. Se for pra falar, falem a verdade.” enfatiza Michel da Divisão de Investigação Criminal (DIC).
O policial da DIC também reconheceu problemas sociais existentes na região. “Falta estrutura de habitação? Sim, sem nenhuma dúvida, mas o resto aí não é verdadeiro.”
As manifestações dos policiais são opiniões e relatos pessoais dos respectivos profissionais e não foram apresentadas como posicionamentos institucionais da Polícia Militar ou da Polícia Civil.
Reportagem utilizada como referência tratava de outro local
Outro trecho do vídeo chamou atenção. Felipe afirma: “Isso não sou eu que tô falando… já teve operação da polícia apreendendo mais de 25 armas de fogo e um milhão de reais em movimentações suspeitas.”
Para sustentar a afirmação, o vídeo utiliza uma chamada jornalística referente a uma ocorrência real. Entretanto, segundo o levantamento realizado pelo Mesorregional, o episódio citado não ocorreu no Morro Dona Edith.
Em outros momentos, os candidatos voltam a apresentar recortes de conteúdos jornalísticos, inclusive com marcas de veículos de comunicação, relacionando diferentes episódios à narrativa apresentada sobre a região.
Segundo as informações repassadas ao Mesorregional, não houve autorização de ao menos parte desses veículos para utilização das respectivas marcas no conteúdo político-eleitoral.
Prefeito de Blumenau também é atacado no vídeo
A publicação também direciona críticas ao atual prefeito de Blumenau, Egidio Ferrari (PL).
Os candidatos afirmam que operações policiais são realizadas há aproximadamente dez anos sem que o problema tenha sido solucionado. Durante o vídeo, Tulio utiliza a imagem do prefeito e o chama de forma pejorativa de “delegado cachorreiro”, atribuindo a ele responsabilidade pela ausência de solução para a situação descrita, além de utilizar o termo chulo para menosprezar ações de proteção animal.
A manifestação do policial civil que reagiu ao conteúdo, entretanto, acrescenta outro elemento ao debate: segundo ele, Egidio atuava como delegado em operações policiais realizadas naquela região.
Candidato fala em “controle migratório” e em criminosos mortos pela polícia
Em outro momento, Felipe Barcelos endurece significativamente o discurso sobre segurança pública.
O candidato menciona que já teria sido processado anteriormente em razão de conteúdo semelhante produzido em Florianópolis e declara: “Vagabundo que vem para Santa Catarina tem que ter controle migratório […] ser mandado para outro lugar e, se vier pra cá, tem que ser preso ou morto pela Polícia Militar.”
A declaração mistura propostas relacionadas à circulação de pessoas dentro do território nacional com atuação policial. A livre locomoção no território brasileiro é uma garantia constitucional, enquanto o emprego de força letal por agentes de segurança está sujeito às hipóteses e requisitos previstos na legislação, não podendo decorrer simplesmente da origem geográfica de uma pessoa ou de sua entrada em determinado estado.
Felipe ainda fez uma promessa relacionada à destinação de futuras emendas parlamentares: “Eu faço uma promessa para vocês: R$ 10 milhões, do dinheiro que eu vou ter de emendas vai para a polícia poder matar muito vagabundo.”
Moradores reagem: “conheçam a comunidade inteira”
O conteúdo também provocou reação entre moradores da região, que criticaram a forma como a comunidade foi apresentada.
Uma moradora escreveu: “A Velha Grande não é cenário para político de internet ganhar fama. Aqui moram famílias, trabalhadores e crianças que merecem respeito e condições dignas. Antes de falar da comunidade, conheçam a comunidade inteira.”
Outro internauta questionou especificamente a afirmação sobre as barricadas: “Muita mentira, porque nunca houve barricada […] Isso é sensacionalismo e politicagem para ganhar votos.”
Os comentários refletem as manifestações individuais dos usuários e não permitem, isoladamente, medir a opinião de toda a comunidade.
Tráfico é problema real, mas descrição é contestada
As críticas ao vídeo não significam negar a existência de tráfico de drogas ou problemas sociais na região do Morro Dona Edith.
Operações policiais já foram realizadas na área ao longo dos anos e a própria manifestação do policial civil reconhece a existência de forte atuação relacionada ao tráfico de drogas.
A controvérsia está, portanto, na maneira como a realidade foi apresentada e, principalmente, nas afirmações específicas sobre barricadas e crianças armadas, contestadas publicamente por profissionais que afirmam conhecer ou ter atuado diretamente na região.
Em 2019, operação uniu segurança e ação social no morro
Durante o levantamento realizado para contextualizar a história da região, o Mesorregional encontrou também um episódio com abordagem bastante diferente.
Em 2019, o 10º Batalhão de Polícia Militar, em conjunto com o então Departamento Estadual de Administração Prisional, atualmente inserido na estrutura da Polícia Penal, desenvolveu a chamada Operação Mãos Dadas.
A iniciativa promoveu uma ação de limpeza no morro com a participação de apenados do sistema prisional.
Na época, a iniciativa partiu do então comandante do 10º BPM, coronel Jefferson Schmidt, atualmente candidato a deputado estadual pelo PSDB.
A experiência vivida durante sua passagem pelo comando da Polícia Militar em Blumenau também integra relatos posteriormente reunidos na obra “O Comando da Confiança”, que aborda histórias, bastidores da segurança pública e experiências de sua trajetória à frente do batalhão.

O contraste entre os conteúdos mostra diferentes formas pelas quais segurança pública e comunidades socialmente vulneráveis podem aparecer no debate eleitoral: de um lado, candidatos utilizando denúncias e episódios policiais para sustentar críticas; de outro, registros históricos de ações realizadas diretamente no território.
Em período eleitoral, especialmente quando segurança pública e comunidades inteiras são utilizadas como elementos de campanha, a distinção entre fatos comprovados, opiniões políticas e afirmações ainda sem comprovação é fundamental para que o eleitor tenha condições de formar sua própria avaliação.
